Análise Fundamentalista de Bancos e Financeiras

O setor de bancos e financeiras apresenta um padrão contábil diferente dos demais setores e,  tendo em vista que seus ativos são provenientes predominantemente de depósitos de seus clientes, o risco do crédito e o risco de liquidez afetam profundamente o setor. As fontes de recurso dos bancos são principalmente os depósitos dos clientes, os empréstimos recebidos e os recursos próprios (capital e reserva). As principais receitas provem dos serviços de intermediação financeira e demais produtos vendidos e, principalmente, do spread bancário. Com relação aos custos das instituições financeiras, estes podem ser financeiros e administrativos.

O spread é a diferença entre a taxa de juros cobrada nos empréstimos aos seus clientes e a taxa paga pelo banco aos seus depositantes e outros credores. Portanto, as maiores "dívidas" bancárias são os próprios depósitos dos clientes, os quais são utilizados pelo banco para investimentos produtivos. Assim, a análise através de indicadores deve ser ajustada especificamente para este setor que, além disso, apresenta indicadores de liquidez, de endividamento e de rentabilidade próprios.

Indicadores de Rentabilidade

• Preço sobre Vendas - PSR - Este indicador compara o preço de mercado da ação do banco com as Receitas da Intermediação Financeira. Representa o quanto o mercado está disposto a pagar pela ação para cada R$ 1,00 que o banco recebe em receitas da intermediação financeira anuais (fórmula ajustada para instituições financeiras).

• Giro do Ativo - Este indicador mede o volume de Receitas da Intermediação Financeira em relação ao Ativo Total evidenciando o nível de eficiência com que são utilizados os recursos aplicados, ou seja, a produtividade dos investimentos totais (ativo total) (fórmula ajustada para instituições financeiras). Indica o quanto de Receitas da Intermediação Financeira cada R$ 1,00 de ativo gera e, portanto, quanto maior melhor, pois maior será o potencial de geração de Receitas da Intermediação Financeira anual a partir do total dos seus ativos.

• Margem Financeira - Representa a margem de lucro bruto do Banco. Ou seja, demonstra percentualmente o quanto de cada R$ 100,00 de venda permaneceu na empresa na forma de lucro bruto após abater apenas as despesas de intermediação financeira, mostrando a performance financeira. Portanto, quanto maior melhor.

• Margem Operacional - Representa o percentual de lucro operacional gerado sobre as receitas de intermediação financeira. Assim, se o resultado for 15, por exemplo, isso significa que de R$ 100,00 recebidos R$ 15,00 são retidos na forma de lucro operacional. Portanto, quanto maior melhor. Cabe ressaltar que o EBITDA não deve ser utilizado para bancos, devendo-se utilizar o lucro operacional.

• Margem Líquida - Representa o percentual de lucro líquido gerado sobre as receitas de intermediação financeira. Assim, se o resultado for 15, por exemplo, isso significa que de R$ 100,00 recebidos R$ 15,00 são retidos na forma de lucro líquido. Logo, se compararmos duas empresas, aquela que apresentar maior margem líquida será a mais lucrativa.

• Juros Passivos – Relação entre a despesa de intermediação financeira e o passivo total mantido pelo banco. Representa o custo das fontes de financiamento do banco, logo, quanto menor melhor.

• Custos Operacionais - Indica o quanto custa para um banco gerar R$ 1,00 de lucro operacional, medindo sua eficiência operacional. Portanto, quanto menor melhor. Logo, um valor de 50% indica que o banco gasta R$ 0,50 para gerar R$ 1,00 de lucro operacional. Uma tendência de queda neste indicador ao longo dos trimestres indica melhoria na rentabilidade e/ou redução dos custos operacionais do banco. Por outro lado, uma tendência de alta indica uma redução da rentabilidade e/ou aumento dos custos operacionais.

• Índice de Eficiência - A eficiência bancária indica o quanto o banco gasta com despesas operacionais para cada real de receita de serviços e intermediação financeira. Representa a razão entre Despesas Operacionais e Receitas de Intermediação Financeira. Quanto menor seu percentual melhor o desempenho operacional da instituição.

• Retorno das Operações de Crédito - Relação entre as receitas financeiras provenientes das operações de crédito e o valor dos empréstimos concedidos. Indica o percentual de retorno dos empréstimos concedidos pelo Banco. Quanto maior melhor. As operações de crédito realizadas pelos bancos podem ser empréstimos, títulos descontados (desconto de duplicatas) e financiamentos.

• Giro do PL – Relação entre as receitas de intermediação financeira e o patrimônio líquido. Indica quantas vezes o capital próprio se transformou em receitas para o banco nos últimos 12 meses, ou seja, o quanto de Receitas da Intermediação Financeira cada R$ 1,00 de patrimônio líquido gera e, portanto, quanto maior melhor.

• Spread Total – O spread gerado na atividade de intermediação financeira representa parte considerável do resultado de instituições financeiras. É a diferença entre o retorno das operações de crédito e o custo de captação. Portanto, quanto maior melhor. Spreads altos estão associados a ativos de alta qualidade e maior eficiência bancária, indicando menores despesas e/ou maiores receitas. Por outro lado, elevados spreads estão relacionados a ineficiência e a um maior custo de captação.

"Conheça bem o que você possui e saiba muito bem porque você possui isso."

Peter Lynch

Indicadores de Liquidez

O Risco de Liquidez refere-se à possibilidade de desequilíbrios entre ativos negociáveis e passíveis exigíveis, ou seja, descasamentos entre obrigações a pagar e direitos a receber que possam afetar a capacidade de pagamento da instituição. O risco de liquidez no setor financeiro normalmente origina-se na dificuldade de captação de recursos para financiar os ativos, conduzindo, normalmente, ao acréscimo dos custos de captação, mas podendo implicar, também, numa restrição do crescimento dos ativos e na dificuldade de liquidação de obrigações para com terceiros, induzida por descasamentos significativos entre os prazos de vencimento de ativos e passivos. A capacidade de pagamento dos valores depositados pelos clientes é um dos fatores mais importantes numa instituição financeira.

• Índice Basiléia - Mede o grau de alavancagem financeiro de uma instituição financeira, a qual deve mantê-lo índice acima do patamar de 11% exigido pelo Banco Central.  O Índice de determina a relação entre o capital próprio da instituição e o capital de terceiros (captações) que será exposto a risco por meio da carteira de crédito. Quanto menor for o valor, maior será a alavancagem do banco e, consequentemente, maior será o risco de insolvência. Por exemplo, se um banco possui Índice de Basiléia de 20%, significa que para cada R$ 100,00 emprestados o banco possui patrimônio de R$ 20,00.

• Ativo Circulante/ Depósitos - Indica a cobertura dos ativos circulantes do banco no curto prazo para os depósitos, indicando a capacidade de pagamento do banco no caso de resgates em massa. Portanto, quanto maior melhor. Valores acima de 100% são considerados bons.

• Encaixe Voluntário – Relação entre as disponibilidades e o depósito a vista. Indica a capacidade financeira imediata do banco em cobrir saques contra depósitos à vista. Portanto, quanto maior melhor. Valores mais elevados representam maior segurança financeira à instituição. As disponibilidades são os ativos com a maior liquidez e são constituídos pelos encaixes bancário e aplicações em ouro. 

• Empréstimos/Depósitos – Relação entre as operações de crédito e o total da captação do banco sob a forma de depósitos. Indica o quanto a instituição captou de empréstimos (depósitos) para cada R$ 1,00 que emprestou e, quanto maior for, maior será o saldo que o banco emprestou contra o que recebeu de captação. Valores muito altos, próximos de 70%, são considerados ruins, devido a grande exposição do banco ao risco de inadimplência, à alta concentração em ativos de baixa liquidez (empréstimos) e à baixa cobertura oferecida aos empréstimos. Por outro lado, valores muito baixos indicam ineficiência no uso dos ativos, visto que o retorno das operações de empréstimos normalmente é superior ao retorno das operações de investimentos.

"Quando você investe, está comprando mais um dia em que não precisará trabalhar."

Aya Laraya

Indicadores de Endividamento

O endividamento elevado e a forte capacidade das instituições bancárias de administrar uma grande alavancagem é determinante na lucratividade e na rentabilidade do patrimônio líquido. A maior parte do passivo de um banco pertence aos seus clientes e são utilizados nas suas operações. Diante disso, não podem ser interpretados como dívidas para o cálculo dos indicadores de endividamento tradicionais, tais como grau de endividamento, participação do capital de terceiros, Composição do Endividamento, Dívida Líquida / EBITDA, dentre outros, os quais não oferecem indicações significativas para o setor financeiro. Diante disso, existem indicadores próprios para a análise do setor.

• Imobilização do Patrimônio Líquido (IPL) – O índice de imobilização do Patrimônio Líquido indica quanto do Patrimônio Líquido do Banco está aplicado no Ativo Imobilizado, ou seja, o quanto do Ativo Imobilizado é financiado pelo seu Patrimônio Líquido, evidenciando dessa forma uma maior ou menor dependência de recursos de terceiros para manutenção do negócio. Quanto menor o percentual melhor. Quanto mais reduzido for o Índice de Imobilização, maior agilidade terá o banco para usar seu patrimônio a fim de honrar seus compromissos. Por exemplo, se um banco possui Índice de Imobilização de 30%, significa que, a cada R$ 100,00 em seu patrimônio, R$ 30,00 estarão investidos em bens que não possuem uma liquidez imediata, ou seja, imobilizado em imóveis, veículos, materiais, etc. O índice máximo tolerado pelo Banco Central do Brasil é 50%.

• Alavancagem - Relação entre o ativo total e o patrimônio líquido. Indica a proporção em que o ativo do banco é maior do que o capital próprio da instituição. Valores muito altos revelam baixa participação do capital próprio e uma elevada dependência de recursos de terceiros (grande alavancagem). Uma grande utilização de capitais de terceiros para financiar os ativos está relacionada a maiores riscos operacionais e financeiros, uma vez que o capital de terceiros é mais sensível às variações de mercado que o capital próprio. Por tanto, quanto menor melhor.

• Participação dos Empréstimos – Relação entre as operações de crédito e o ativo total. Indica o percentual do ativo total de um banco que se encontra aplicado em empréstimos (operações de créditos). Valores altos indicam baixo nível de liquidez, ao passo que, também podem mostrar um incremento dos resultados operacionais através da alavancagem, visto que quanto maior a participação de empréstimos, maior a receita de juros para a Instituição. Por outro lado, valores muito baixos indicam ineficiência no uso dos ativos, visto que o retorno das operações de empréstimos normalmente é superior ao retorno das operações de investimentos.

• Custo de Captação – Relação entre as despesas de captação de dinheiro no mercado e o total dos depósitos a prazo mantidos pelo banco. Revela o custo financeiro do capital investido na instituição por poupadores (custo de captação). Quanto menor melhor. A comparação com o segmento permite conhecer quanto a instituição está pagando na obtenção de recursos por meio de depósitos em relação às demais. 

• PDD/Operações de Crédito - Representa o custo das despesas de PDD sobre o total de empréstimos concedidos indicando a qualidade da carteira de crédito do Banco. Quanto menor as despesas melhor é a qualidade da carteira. A Provisão para Devedores Duvidosos (PDD) é uma reserva de valores, feita antes do início de cada exercício contábil, que servirá para cobrir uma eventual inadimplência dos clientes.

• Independência Financeira - Indica o percentual do ativo total que está sendo financiado pelos recursos próprios da instituição financeira (Patrimônio Líquido), indicando o nível de independência em relação ao capital de terceiros. Quanto maior melhor.

• Patrimônio Líquido/Depósitos - Indica o percentual dos depósitos captados pelo Banco que estão cobertos pelo seu patrimônio líquido, mostrando a segurança oferecida pela instituição aos recursos dos seus clientes. Logo, quanto maior melhor.

"A especulação é um grande esforço, na maioria das vezes mal sucedido, de transformar uma pequena quantia de dinheiro numa grande quantia. O investimento, ao contrário disso, na maioria das vezes é um esforço de prevenir que uma grande quantia de dinheiro seja transformada numa pequena quantia."

Fred Schwed Jr

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